(Foto da Wikipédia que não corresponde ao que era a Nora do Barranco)
NORA DO BARRANCO
A Nora do Barranco era, como tantas outras existentes por esse Portugal e por esse mundo, um engenho de tirar água destinada à rega das mais diversas espécies agrícolas. O Barranco, lugar que empresta o nome à gigantesca engenhoca, é uma grande tapada que se situa logo a seguir à Chã Martins à direita do caminho que nos leva da Atalaia para a Degracia e vice-versa. Predominam ali sobretudo os sobreiros e na primavera, as estevas cobrem de verde e de flores imaculadas os terrenos mais agrestes.
A necessidade de obter um ponto de inclinação que permitisse que a água corresse para um tanque de armazenamento situado na meia encosta obrigou a que, a nora tivesse que se elevar vários metros acima do solo. Contando com a profundidade do poço diria que a água seria elevada pelos alcatruzes até cerca de doze a quinze metros, contados desde o seu nível no fundo do poço até ao tabuleiro situado num patamar de construção metálica suportado por dois enormes pilares de alvenaria.
As noras são engenhos de tirar água accionados pela força de puxo de um animal que marcha em constante movimento de carrossel e de olhos vendados, a fim de evitar aquela espécie de bebedeira que já todos alguma vez experimentámos em pequenos quando rodopiamos.
Burros, mulas, cavalos e até bois, eram, pelas necessidades da vida, autenticamente “escravizados” num esforço levado ao limite durante horas e horas marchando num trilho em circunferência que obrigava o animal a uma postura em que todo o seu corpo se curvava ao formato do caminho.
A grande maioria destas noras eram montadas directamente sobre duas pequenas vigas fixadas directamente na parede do poço.
A Nora do barranco não era assim. Havia um eixo que se elevava a vários metros na vertical até aos dois enormes carretos que se casavam para transformar o movimento vertical da tracção animal no movimento horizontal da grande roda que suporta a corrente de alcatruzes que se iam sucessivamente despojando da água que um após outro iam trazendo do fundo do poço.
Imaginemos que, cada alcatruz tem capacidade para 5 litros de água, se multiplicarmos isto por cerca de 20 a 25 alcatruzes cheios a subir em simultâneo, dá para perceber que são cerca de 100 a 125 kg a serem puxados ininterruptamente na vertical.
A água cristalina chegava vagarosamente ao tanque, ao ritmo pachorrento com que o animal se deslocava penosamente no calvário que em cada verão o desesperava.
O feijão-frade já ia verdejando na várzea de terra cinzenta que se estende a perder de vista, e em breve seria necessário começar a soltar a água armazenada no tanque, sem que isso significasse o abrandamento do ritmo de funcionamento da Nora. E era assim, até que o feijão ficasse maduro e pronto para ser colhido e levado para a eira, onde, estendidas ao sol, as suas vagens se manteriam até estarem suficientemente ressequidas e prontas a serem separadas dos pequenos grãos, aguardados pacientemente pelas populações que os acautelavam quase religiosamente como recurso alimentar para os tempos mais frios em que outros alimentos escasseavam.
2010-06-05
João Margarido Chamiço
Para trás ficara já o Alto Pina. Agora, o caminho descendente que pela vertente se estende vai ficando cada vez mais estreito e pedregoso.
Era uma manhã ainda fresca de Março. Dois amigos caminhavam para mais uma jornada de lavoura no Cabril. Antes porém, havia que parar na fonte de baixo para que enchessem o bucho de água os animais que haveriam de puxar pelo arado na jeira que iria durar o tempo que duraria a luz do sol desde o nascer ao pôr.
As raparigas iam à fonte equilibrando cântaros sobre a cabeça e os rapazes aproveitavam para metar conversa. Era assim que alguns namoros começavam.

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(Foto gentilmente cedida pelo Zé Diniz)
(Foto gentilmente cedida pelo Zé Diniz)
Atalaia, tal como o nome leva a supor, situa-se num alto de onde se estende o horizonte, razão pela qual nos tempos idos foi local de uma torre de vigia e de uma fortaleza destinada a refugio e protecção às invasões castelhanas. Esta informação pode ser vista no livro "Monumentos Militares Portugueses", cap. III pág. 138: "No cimo do pequeno outeiro, cota de 275m, que se levanta no extremo sudoeste da povoação da Atalaia, situada a 5km a su-sudoeste da vila de Gavião, existem ligeiros vestígios de uma antiga construção Castrense. Dada a sua situação e natureza e o facto de ali passar a via militar Romana que de Santarém prosseguia para Cáceres por Castelo de Vide e Aramenha, é de presumir que se trate de um Castro Lusitano da época do calcolítico,mais tarde aproveitado pelos Romanos, e transformado, segundo a sua técnica castrense,para guarda daquela estrada imperial.
Destruído o castelo Romano pelos Vândalos, teria sido reconstruída uma das torres, a qual serviria de atalaia durante as lutas da reconquista neo-goda e as lutas com Castela. Durante as guerras da Restauração foi restaurado o castelo ou torre de atalaia e construída uma alta cerca amuralhada para refúgio dos habitantes das vizinhanças e seus gados contra as incursões e correrias dos Espanhóis."
O Alentejo, é cada amigo meu,
E é cada grão de trigo de uma vida
e cada lírio triste que morreu;
E é um sobreiro velho, e sou eu!
E cada giesta branca ali nascida.
O Alentejo, são gentes que vagueiam,
P’ra sempre agrilhoadas ao “seu chão”;
E as papoilas vermelhas que incendeiam
As paisagens, e as misérias que medeiam
Mesas alheias em que sobra o pão.
O Alentejo é um vagaroso rio
Que se esgota exangue, que se esvai
Em enxurradas de sol e de estio,
Jorradas em searas de pousio
E marés de malmequeres em Maio.
O Alentejo é um brado que murmura
Dentro de mim sussuros inaudíveis,
Recados da saudade que me obtura
Indelével no tempo e na lonjura
E em sonhos de regressos impossíveis.
O Alentejo é um poema infinito
Qual pintura de sublime aguarela;
Perfume das estevas, inaudito,
É o eco dissipado de um grito:
Soneto arrebatado de Florbela
João Chamiço
Como sinal de solidariedade alentejana, aqui fica um link muito interesssnte.
Não deixe de ir ver.
http://nisartes.blogs.sapo.pt/
Seis anos. Seis anos eram os que tinha aquele menino que pulou da cama a meio da noite quando o pai se apressava para se por a caminho. Eram 4h30 de uma madrugada tépida de verão. As pestanas tentavam teimosamente fechar-se sobre os seus olhitos baços de sono, e a permanente lembrança do aconchego dos lençóis adensavam-lhe ainda mais a vontade de ficar na cama. Porém, a carroça de grandes rodas de madeira e ferro, rapidamente se pôs ruidosamente em marcha pelos caminhos, umas vezes de macadame e outras vezes, as mais das vezes, apenas de terra e calhaus. Ver o rio Tejo pela primeira vez e mesmo passar para lá dele, fazer a travessia do rio lá na Barca da Amieira, juntamente com a carroça e o macho e uma data de gente nunca antes vista, era uma odisseia a que nem todas as crianças tinham a oportunidade de ter acesso. Daí que, todos os sacrifícios valessem a pena, ainda que isso implicasse saltar inusitadamente da cama a meio da noite em vez de ficar comodamente deitado até para lá do nascer do sol. A casa, no Vale da Feiteira, na Comenda, rapidamente desapareceu do alcance da vista, apesar da marcha pachorrenta da carroça que se prolongou por tantas horas que mais parecia que os levava em busca de algum lugar num qualquer fim do mundo imaginário. Depois, finalmente, a povoação de Amieira do Tejo primeiro, uns longos metros de um velho caminho feito de pedaços de granito, e logo o cais, ali ao fundo, onde o caminho acaba e o rio começa. - Que barca enorme! Exclamou ele admirado com a dimensão da jangada que haveria de os levar a bom porto já na outra margem do grande rio tão enigmático como as nuvens brancas quase eternas que se avistavam a quilómetros de distância a pairar sobre o vale em que o Tejo desliza; ora calmamente, ora furioso e revolto em direcção a S. Julião da Barra. - Que nuvem é aquela pai? Aquela ali, tão branca, que se estende ao longo de todo aquele vale! - Estou a ver. – Aquela nuvem está ali todos os dias, ou quase, é a neblina provocada pela evaporação das águas do Tejo, sempre que determinadas condições atmosféricas se conjugam. E elas conjugam-se muitas vezes!. - Isso quer dizer que é já ali o Tejo? - É o Tejo sim, mas não é já ali!. Apenas parece que é já ali!. Vais ver que é muito mais longe do que parece!. À hora marcada, o barqueiro mandou subir; primeiro a carroça e a mula, depois umas dezenas de pessoas que esperavam pacientemente pelo momento de embarcar, como se fossem atravessar o mar em busca da terra prometida. A canzoada não parava de ladrar a toda a gente que chegava, mas no momento de embarcar, também eles subiram à barca. Aconchegaram-se a um canto de onde observavam ininterruptamente a corrente. Todas as bocas caninas se emudeceram tão estranhamente que mais parecia haver ali um prenúncio de tragédia. Ou será que os cães, ao contrário das pessoas que ali iam, sabiam por instinto que ali passara o cortejo fúnebre de uma das mais conhecidas e ilustres rainhas de Portugal, a rainha Santa Isabel, aquando da transladação do seu féretro de Estremoz para Coimbra, e por isso faziam reiteradamente aquele silêncio?. As mãos do barqueiro pareciam de ferro, e com elas ele empunhou uma vara enorme que ia firmando no fundo do leito fazendo deslocar a barca até à margem oposta, lá onde o Alentejo acaba e a Beira principia. Três ou quatro impulsos da grossa vara, e eis a Beira Baixa, ali, no cais do lado norte do rio. A Estação do "Fratel – Barca da Amieira", servia os passageiros da linha da Beira Baixa que moravam de um e outro lado do caudal, e estava agora ali, à mercê dos agora desembarcados mal puseram os pés em terra firme na margem direita do rio. Os pimentos vermelhos que a ruidosa carroça transportava destinavam-se à Fábrica de São José das Matas onde iriam ser moídos e transformados em pimentão, e era nestes meios rudimentares de transporte que eram carreados desde as terras de produção nas Polvorosas e noutras herdades das redondezas. As giestas floridas de amarelo que cobriam os campos na primavera, há muito que se haviam transformado em arbustos apenas verdes e fecundos cobertos de vagens repletas de sementes prestes a eclodir. As flores brancas das estevas haviam perdido todas as pétalas e estas eram agora apenas plantas sequiosas, de folhas luzidias e peganhentas, e das suas belas flores alvas não restavam agora senão as coroas esturricadas pelo sol. Os tojos e os sargaços também se haviam rendido ao implacável rigor do estio, e todas as flores das papoilas vermelhas haviam caducado de vez e já se haviam despedido até à próxima primavera. Quando finalmente se avistou a Fábrica de pimentão já o sol se aprestava a “afundar-se” para lá da linha do horizonte. O animal de jugo estava completamente exausto, e o seu pelo repassado de suor mais parecia ter atravessado uma tromba de água, e mesmo assim era como que voasse. Parecia ter a certeza de que era ali que se iria livrar da pesada carga que o atormentava desde alta madrugada, ainda que algumas breves paragens pelo caminho lhe tivessem permitido retemperar as forças e aconchegar o estômago com algumas favas e alguns grãos de aveia que sorvia de um saco de serapilheira em que enfiava o focinho até à orelhas repescando minuciosamente cada pequeno grão. O miúdo de seis anos, vencido pelo cansaço, depressa adormeceu, mau grado a dureza do lastro da carroça. O regresso a casa aconteceu já noite adentro, quase à mesma hora a que se iniciara a viagem no dia anterior. As nuvens brancas continuavam lá, e o miúdo de seis anos, revivia a lembrança de toda aquela novidade interrogando-se se; a barca e aquele “estranho” barqueiro que usava a força dos seus braços como meio de locomoção serrando os grossos punhos em volta de uma espessa vara que fundeava vigorosamente no leito sinuoso do rio, lá estaria também e até quando. 40 anos mais tarde voltei ao rio. Voltei ao velho cais. Sim, voltei! Já perceberam que era eu mesmo, aquele miúdo de seis anos que saltou da cama a meio da noite para ir ver o Tejo e aquela estranha neblina que se avistava de longe parecendo querer manter dissimulado o rio lá bem no fundo daquela ravina, mas que ao mesmo tempo o denunciava com a sua quase eterna presença. Se subirmos ao Alto Pina, na Atalaia, e estendermos o olhar para norte na direcção da Ladeira, o mais provável é podermos observar aquele manto branco, que em certos dias nos turva a visão a ponto de nos parecer ver uma cordilheira de montanhas. 40 Anos depois retomei o percurso no mesmo sítio, e a viagem não demorou senão uns 25 minutos. De automóvel claro!. O Castelo de Amieira continuava lá como antes e o cais da “Barca da Amieira” também. A barca estava em seco, não sei se “moribunda”, e não havia sinais de haver por ali barqueiro algum de grossos braços que me levasse ao outro lado do rio. A neblina quase eterna que se avistara de longe desde que o dia clareara já se havia dissipado, mas na manhã de amanhã ela irá marcar presença no mesmo lugar. Vá-se lá adivinhar se os cães, se ainda os houver, irão parar misteriosamente de ladrar perante a eminência do embarque, e vá-se lá adivinhar se não haverá gente, nem carroças nem mulas, nem outro vigoroso barqueiro que os leve a todos a bom porto. João Margarido Chamiço Sítios relacionados: http://www.cm-nisa.pt/casteloamieira.htm
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